HÁ DENTRO DE NÓS
Há dentro de nós
Outros universos
Que nos dão estranha força;
Estranho poder;
Estranho espanto.
Há dentro de nós
Uma frustração de Ser.
Há dentro de nós
Uma vontade de tudo.
Há dentro de nós
Grossas amarras
Que nos prendem
A esgotadas e caquéticas
Transcendências.
Há dentro de nós
Um grito feito lâmina
Que anseia cortar
De uma só vez
As palavras da nossa insignificância.
Ainda somos prisioneiros de nós.
Quando nos julgamos libertos,
Afogamo-nos em demagógicas
Orgias temperamentais.
Somos falhados aprendizes de Vida.
Lavamos no Tempo
Repetidas frustrações
E devoramos em tumultuoso silêncio
A raiva que nasce
Nos sentidos.
Até à descoberta de uma “nova” verdade,
Repousamos no plano vertical
E adormecemos lentamente
Acordando mais tarde
Na singularidade
Troglodítica da existência.
Existir é um acidente da humanidade.
Existir é o princípio de um ir-sendo
Na longa viagem em demanda de nós
Que somos em pedaços,
Deuses
Em estado semi-mortal de vida latente.
in Eu, O Ser e a Dúvida,
Edições Orpheu, 1989




3 Comments:
Há dentro de nós pouco de tudo quanto seremos, a semente encasulada no ocaso que ainda aguardamos, há por dentro esta espera desesperada que vai construindo a esperança de um dia ver, fora de nós, tudo aquilo que vai por fugindo por dentro.
Belissimo poema. Visceral mesmo.
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lunar, at Sexta-feira, Agosto 05, 2005
Porque escreves?
Dais voz a que?
Gostei do que li.
Uni-verso estranho esse da escrita e verso, vers~es muitlfacetadas de polifonias distantes!
http://www.palabras-aladas-ruth.blogspot.com/
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ruth, at Quinta-feira, Julho 05, 2007
Já te descobri colega e já agora obrigada pelo copo de vinho do Porto.
Adorei este poema, dos que li até agora este foi o que mais gostei.
És um artista que permanente-mente, contas estórias, de-vidas, em-deusadas, que buscas a verdade no -mente do interior- ou simples-mente mentes porque a verdade não é mais que a mentira levada ao limite da nossa com(s)ciência
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Maria Madalena, at Domingo, Dezembro 21, 2008
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